DeFi: O Guia para as Finanças Descentralizadas

O que é defi

Finanças Descentralizadas, ou DeFi, é uma das muitas aplicações que surgiram com o aparecimento da blockchain.

São aplicações criadas para que todos, em qualquer lugar, tenham acesso a instrumentos financeiros, que antigamente se destinavam apenas a alguns.

Contração de empréstimos, depósitos com juros atraentes, ativar seguros, são algumas das operações que pode realizar com DeFi, sem necessidade de recorrer a bancos ou corretoras.

Contudo, apesar do DeFi se destinar ao mais comum mortal, começar neste mundo não é nada fácil.

É por isso que existe este guia, e nele exploramos:

Vamos começar pelo início:

O que é DeFi?

DeFi surge da expressão inglesa Decentralized Finance (Finanças Descentralizadas), termo utilizado para representar um conjunto de serviços financeiros peer-to-peer que acontecem dentro de uma rede Blockchain.

Sumariamente, DeFi pretende utilizar a blockchain para replicar serviços prestados exclusivamente por bancos ou outras entidades financeiras, reduzindo assim a dependência que temos deste sector.

Ao não necessitar de um intermediário para realizar e validar operações financeiras, DeFi pretende então tornar este sector mais eficiente, transparente, barato, seguro, privado, e livre da corrupção associada ao mercado financeiro.

A importância das Finanças Descentralizadas

Ainda se lembra da crise financeira de 2008 e como os grandes bancos dos Estados Unidos foram responsáveis pela mesma?

Ou mesmo os escândalos que aconteceram em alguns bancos Portugueses que levaram prejuízo de centenas de milhões de euros ao Estado Português?

Através da inovação trazida por DeFi, bancos e corretoras já não são o centro de qualquer transação ou aplicação financeira, sendo que a Blockchain assume esse papel.

Esta permite pela primeira vez realizar transações peer-to-peer, diretamente de pessoa para pessoa ou de instituição para instituição sem a necessidade de um intermediário que as valide ou garanta a sua segurança (mais sobre isto mais à frente).

O objectivo das Finanças Descentralizadas é a criação de uma rede aberta a todos, sem necessidade de permissão prévia para se participar, levando instrumentos financeiros àqueles que nunca teriam acesso aos mesmos por ordem e critérios das atuais instituições financeiras.

Com a tecnologia a assumir o papel de intermediário, sem regulamentação de uma autoridade central sujeita a corrupção, catástrofes económicas como a que aconteceu em 2008 poderão ser prevenidas.

Após percebermos um pouco a importância que as finanças descentralizadas têm na nossa sociedade, é então fácil listar os benefícios do DeFi:

Benefícios do DeFi

  • Transparência: Como as operações financeiras são registadas e validadas por outros usuários da blockchain, e porque existe livre acesso permanente para todos os intervenientes a esses mesmos registos, o risco de fraude é bastante limitado;
  • É para todos: Em DeFi, não há quaisquer restrições tais como nacionalidade, idade, localização, classe social ou capacidade financeira. Qualquer pessoa com uma carteira de criptomoedas (crypto wallet) e acesso à internet pode participar nas Finanças Descentralizadas;
  • Controlo total : Os investidores têm a opção de manter a custódia dos seus ativos, não tendo de os delegar a uma terceira entidade como um banco. Basta para tal terem a sua própria crypto wallet , ou mesmo uma cláusula registada num contrato inteligente (smart contract);
  • Tempo real: Todas as operações são realizadas em tempo real, a rápida velocidade. A blockchain é atualizada no momento da operação, e as taxas de juro, por exemplo, podem ser atualizadas até ao minuto. Tremenda vantagem quando comparado aos atuais sistemas financeiros que podem demorar dias, semanas ou até mesmo meses para aprovar uma operação.
  • Segurança: Os contratos são feitos de forma a que qualquer alteração ou erro possa ser de imediato auditado por todas as partes, ao mesmo tempo que a arquitectura da blockchain, como a Ethereum por exemplo, mantém os ativos seguros;
  • Programabilidade: Este último para os programadores, como os contratos são criados com base em sistemas de open source , as limitações são praticamente nenhumas no que respeita à integração com outros programas ou aplicações descentralizadas, abrindo espaço à criação de novas aplicações inexistentes nos atuais mercados financeiros.

Terminologia Essencial

dApp

“dApps” são a sigla para decentralized applications (aplicações descentralizadas), sendo aplicações digitais criadas na rede blockchain. Estas diferem das demais Apps pois não são programadas e geridas por uma só entidade mas sim pela rede de computadores que compõem determinada blockchain.

Gas Fees

“dApps” são a sigla para decentralized applications (aplicações descentralizadas), sendo aplicações digitais criadas na rede blockchain. Estas diferem das demais Apps pois não são programadas e geridas por uma só entidade mas sim pela rede de computadores que compõem determinada blockchain.

Protocolos

Os protocolos de DeFi correspondem a um conjunto de códigos/directrizes que controlam como um ativo digital é usado na blockchain. São portanto estes protocolos que permitem a criação dos instrumentos financeiros existentes em DeFi.

Peer-to-peer (P2P)

Serviços peer-to-peer (P2P) correspondem a transações realizadas entre duas entidades, pessoas ou empresas, na qual não há participação de uma entidade externa para executar e mediar a transação.

Smart Contracts

Smart Contracts (Contratos inteligentes em português), são contratos digitais programados numa linguagem turing complete, ou seja, um contrato inteligente que, com as devidas instruções, memória computacional e tempo necessário, permite resolver qualquer problema e desempenhar qualquer tarefa digital, por mais complexa que esta seja.

Por outras palavras, Smart Contracts podem realizar qualquer tarefa acordada entre duas partes, no momento em que as instruções estabelecidas por ambos sejam cumpridas, funcionando assim como “intermediário externos” que executam e validam as transações.

Stablecoin

As Stablecoin (Moedas estáveis), são criptomoedas que vão buscar o seu valor ao dólar americano, e em teoria correspondem sempre a 1 dólar. Por exemplo, 1 USDT corresponde a 1 dólar (podemos assistir a ligeiras oscilações no seu valor em determinadas alturas). Devido à sua estabilidade, são parte essencial nas Finanças Descentralizadas.

Staking

De forma bastante simplificada, staking é uma forma de ganhar prémios sobre as suas criptomoedas, ao mesmo tempo que mantém a rede segura. A explicação técnica staking é bastante complexa, e recomendamos que invista o tempo necessário para compreender as suas bases.

Carteiras

As carteiras de crypto servem para guardar private keys (chaves privadas), sendo a melhor forma de manter as as suas criptomoedas seguras e acessíveis. É através das carteiras que podemos enviar e receber criptomoedas.

Na impossibilidade de colocar neste artigo todos os termos relacionados com DeFi ou Blockchain, deixamos aqui um link para o glossário em Inglês criado pela Yearn Finance.

Como é que o DeFi funciona?

Como vimos, DeFi representa uma série de produtos criados numa rede aberta e descentralizada à qual damos o nome de Blockchain.

Em contraste com serviços financeiros tradicionais, centralizados e geridos por entidades como bancos ou corretoras, em DeFi estas instituições não são necessárias para realizar transações financeiras.

Estes intermediários são eliminados, assim como as ineficiências associadas aos mesmos, sendo substituídos por código a correr na Blockchain.

No fundo, os produtos DeFi são isto mesmo, código ao qual damos o nome de Smart Contracts, sendo este código o intermediário desta nova geração dos mercados financeiros.

Os Smart Contracts são o substituto natural do papel dos bancos, corretores, advogados, ou quaisquer outros intervenientes.

E neste novo mercado financeiro, qualquer pessoa tem a possibilidade de aceder à rede Blockchain e usufruir destes produtos.

No exemplo de uma contração de um empréstimo para comprar casa, os intervenientes são:

  1. O António que precisa do dinheiro para comprar casa;
  2. Uma instituição ou pessoa individual que tem o dinheiro para emprestar;
  3. Um Smart Contract que organiza e valida a transação entre as partes.

As aplicações DeFi, esse tal código, é portanto uma ponte entre dois ou mais intervenientes.

Seguindo este exemplo, qualquer pessoa pode adquirir esse mesmo empréstimo sem a necessidade de recorrer a um banco. Poderá recorrer a um produto DeFi para obter esse mesmo empréstimo, desde que cumpra com os requisitos estabelecidos na assinatura do smart contract (por exemplo, o valor mínimo da colateral).

Em DeFi, criptomoedas (como Bitcoin, Ether, ou outras) são utilizadas como colateral ao empréstimo.

Vários são os tipos de produtos e aplicações financeiras existentes nestas novas Finanças Descentralizada, sendo a contração de um empréstimo apenas um exemplo.

Tudo isto de forma transparente, registado na blockchain, e mais uma vez sem a necessidade de intervenientes.

É na Blockchain Ethereum onde encontramos grande parte destas aplicações DeFi.

Contudo, outras blockchains tais como Solana, Fantom, ou Avalanche têm lançado nos últimos anos novos produtos dedicados às finanças descentralizadas.

Exemplos práticos do DeFi

Na secção anterior, vimos que a contração de um empréstimo para investir em imobiliário é uma das muitas operações que o DeFi facilita. Outros tipos de empréstimos também estão cobertos.

Outros exemplos são:

  • Gestão de ativos digitais: Em DeFi, é o próprio utilizador que gere os seus próprios ativos, e não um agente atrás de um balcão de um banco ao qual paga comissões. Comprar, vender, transferir, emprestar, ou investir ativos digitais é tudo feito por si. Assim, você mantem toda a sua privacidade, e os seus ativos não podem ser congelados por qualquer entidade externa.
  • Seguros: Não é novidade que as seguradoras têm enorme representação no mercado financeiro. Também não é novidade toda a burocracia e papelada necessária , além das pessoas que não são consideradas elegíveis para obter determinados seguros. Existem já diversos produtos DeFi com Smart Contracts destinados a oferecer seguros nas mais variadas áreas, tanto para ativos digitais como para o “mundo real”.
  • Gestão de risco: Como as operações financeiras são realizadas na Blockchain, a qual está totalmente disponível ao público para consulta, uma quantidade nunca antes vista de dados pode ser descoberta e analisada. Sem nada a esconder, esta informação pode beneficiar empresas e investidores a tomar decisões mais informadas, mitigando assim o risco.

Protocolos de DeFi mais conhecidos

Seguem alguns exemplos dos protocolos DeFi mais populares nos últimos anos:

Protocolos DeFi Ordenados por Market Capitalization - 25 Fevereiro de 2023 (Coingecko)
Protocolos DeFi Ordenados por Market Capitalization - 25 Fevereiro de 2023 (Coingecko)

Riscos de investir em DeFi

Enquanto tecnologia emergente, é natural que os utilizadores corram alguns riscos ao recorrer às Finanças descentralizadas.

É importante que o leitor esteja ciente dos mesmos, pois ao tomar 100% controle dos seus ativos digitais, também é totalmente responsável se algo não correr como planeado.

De acordo com a Coinbase, estes são alguns dos riscos a ter em conta:

1) Software

Como vimos, os protocolos DeFi têm por base software que corre na blochchain, muitas vezes com pouca ou nenhuma supervisão humana. Tal como qualquer software de computador, os softwares DeFi podem ter bugs, erros base no seu código, e são alvo constante de tentativas de ataque por parte de piratas informáticos.

É portanto importante fazer o seu trabalho de casa e utilizar apenas aplicações DeFi que já estejam no mercado há muito tempo, com provas dadas a nível de segurança, e que operem com altos valores de depósitos nas suas contas..

Apesar de as taxas oferecidas por estes protocolos serem mais baixas, os níveis de risco são bem menores.

2) Contrapartida

Em qualquer empréstimo existem pelo menos dois participantes: Quem precisa do dinheiro, e quem o emprestou.

DeFi não é excepção, e como tal há sempre o risco de quem empresta ficar a “arder” e não ver o seu dinheiro de volta.

É por esta razão que é bastante comum encontrar colaterais bastantes altas (100% do valor do empréstimo ou mesmo superior aos montante em causa), para que quem recebe o dinheiro demonstre a sua real capacidade financeira de devolver o montante (e os juros) no futuro.

Antes de investir em qualquer protocolo, faça a sua pesquisa e tente perceber a quem estará a emprestar o seu dinheiro e como esse mesmo empréstimo será colateralizado.

3) Tokens

Para todos os investimentos em DeFi são necessários tokens ou criptomoedas.

Há vários projetos relacionados com blockchain que ao longo do tempo deixaram de existir, assim como os tokens associados aos mesmos, lesando os seus investidores na totalidade do seu investimento.

Cada token em DeFi tem as suas próprias características.

Por exemplo, uns são suportados por divisas como o dólar para manter o seu valor, outras devem o seu valor a um algoritmo, sendo que cada investidor deve ter a sua própria preferência.

Antes de investir, é crucial fazer uma análise aos tokens utilizados no seu investimento.

4) Regulamentação

Atualmente, a maioria dos governos não têm qualquer tipo de regulamentação no que às Finanças Descentralizadas diz respeito. Esta situação pode, e deve, mudar num futuro próximo, causando um enorme grau de incerteza dos seus efeitos nas aplicações DeFi que temos hoje. Esta incerteza impede grandes investidores individuais e empresas de realizarem mais investimentos no setor.

5) Complexidade

DeFi apenas começou a ser popular em 2020, e apesar do seu potencial, ainda está a dar os primeiros passos quando comparamos a outros mercados mais tradicionais como o mercado bolsista. Este facto cria alguma desconfiança para com a maioria dos protocolos, além de todo o tempo que terá que ser investido para educar as massas neste novo paradigma.

Infelizmente, 99% dos atuais protocolos não são fáceis de utilizar, sendo esta mesma complexidade uma das maiores barreiras à entrada de novos participantes.

Conselhos para começar a investir

Na secção anterior, vimos que há vários riscos a ter em conta se decidir investir em Finanças Descentralizadas.

Assim, é importante implementar estratégias para mitigar esses mesmos riscos e preservar assim o seu capital.

Aprender antes, investir depois

Parabéns! Agora que leu este artigo já sabe 0.5% do que há a saber sobre DeFi!

O caminho não acaba aqui. Não tenha pressa, e antes de investir tire o tempo necessário para ler mais sobre este mercado.

Comece pequeno

Quando começar a investir, comece com pouco! Apesar de toda a leitura que fizer e conselhos que receber, há sempre detalhes que lhe podem escapar. Comece a investir, mas não vá all-in à primeira.

Diversificar

É muito importante perceber que este mercado está a dar os primeiros passos e nenhum protocolo está a salvo. Apesar de toda a confiança que pode ter em determinado protocolo, este pode falhar e o seu investimento será reduzido a zero. É importante então criar o hábito de diversificar desde o dia 1.

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